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Corpos alvo: os corpos caídos têm cor

  • Foto do escritor: Robson Rodriguez
    Robson Rodriguez
  • 1 de mar. de 2021
  • 4 min de leitura

Racismo por definição é o conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre raças ou ainda pode ser entendido como uma doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça, considerada pura e superior, de dominar outras.


As teorias sobre as diferentes raças humanas surgiram inicialmente no final do século XVIII e início do século XIX, tendo como autor principal Joseph Arthur de Gobineau – o “pai do racismo moderno” – filósofo francês e principal defensor da ideia de superioridade da raça branca. Desde então, diversos trabalhos derivados da ideia de raças diferentes entre a espécie humana foram concebidos.


É muito importante ressaltar que sob o ponto de vista biológico, representamos uma única raça: a humana. E isso é entendido desde que o Projeto Genoma Humano foi estabelecido, que analisou a genética de supostas diferentes raças e que tiveram resultados apontando que as diferenças genéticas entre as raças não existem e que as nossas diferenças são sobretudo, fenotípicas, Logo ,assim como diversos conceitos, a concepção e percepção de raça é uma construção social criada com objetivos bastante específicos.


As camadas desta discussão são extremas e profundas, mas é aqui que começamos a entender de onde vem o ta; padrão social, que já te adianto: é branco, masculino, europeu, cisgênero, típico, isto é, sem deficiência e heterossexual. 


Para entendermos a razão desse padrão ser referenciado no mundo inteiro, temos que voltar um pouco no tempo. Em meados do século XVI, por exemplo, o argumento para a conquista e domínio de novos territórios era uma suposta catequização dos povos nativos e indígenas, que segundo a lógica eurocêntrica, eram bárbaros, incivilizados, subdesenvolvidos e os europeus seriam os grandes responsáveis pela sua salvação. Essa lógica era endossada pela ciência e pela religião e isso se refletiu em diferentes povos nos mais diversos lugares do mundo ao longo da história.


É impossível falar de raça no Brasil sem mencionar o contexto histórico ao qual estamos inseridos. Já entendemos por alto que o padrão é branco e europeu e neste recorte, a história do Brasil se inicia num contexto de escravidão, domínio e barbárie sobretudo contra corpos indígenas e pretos exportados para serem escravizados. 


O Brasil foi o maior país escravagista do Novo Mundo. Recebeu mais de 3M de escravos e todo processo foi construído para que não houvesse culpa.  Os senhores de engenho, por exemplo, usavam da justificativa de inferioridade racial, inferindo que pretos eram primitivos, precisavam ser domesticados por meio de trabalho e que a maior evidência disso era o próprio castigo divino, está na Bíblia: “Deus enegreceu a face de Caim quando este matou o seu irmão Abel.” Portanto a face negra faz alusão ao pecado, a perversão, a maldade.


Toda essa construção é reforçada de maneira milenar, onde o heróico segue o padrão  eurocêntrico, loiro, dos olhos claros. Basta percebermos a imagem de Jesus Cristo, seria mesmo possível que ele fosse do jeito como é cunhado nas imagens que vemos?


Por outro lado, a ciência da época, com os pensadores iluministas, os filósofos e cientistas afirmavam que pretos tinham um cérebro menor e eram menos inteligentes e defendiam que as condições de altas temperaturas na África, contribuíram para essa diferença.


Agora pra você que tá aí do outro lado, é notável o impacto que a ciência e a religião tem sob a sociedade, então não é difícil entender o porque essa realidade era tão naturalizada naquela época.


Importante ressaltar trazer um contexto sobre o que foi ser escravo no Brasil.


Imagina viver sem direito de onde se vive, sem direito econômico, das próprias escolhas, não poder acumular as próprias riquezas. Não ter direitos civis, ser literalmente um objeto de serviço, essa era a realidade de um escravo.


E aqui começamos a entender também o porquê as maiores taxas de insucesso tem cor e classe social:


Imagina invadirem sua Terra, pegarem você como um animal, matarem sua família, colocarem você em um navio sob condições subumanas, cujo acordo para retorno pra casa são 14 anos de trabalho escravo. 


Ainda há muitas nuances dessa história, mas para esse curso, o contexto apresentado é o suficiente para seguirmos.


Dito isso,  até o momento em que se instaurou a abolição da escravutura em 1888, o Brasil foi cenário para um verdadeiro genocídio da população negra e indígena e um palco de diversas revoluções e movimentos por partes desses grupos em prol de sua sobrevivência. E é aqui também que imputamos o nascimento das religiões de matrizes africanas, visto que as religiões vigentes da época, contribuíam para demonização do povo preto e legitimização da escravidão.


Agora uma reflexão importante: a abolição da escravidão nasce num contexto onde o regime escravocrata entra em decadência e vários países europeus declaram extinta a escravidão em suas nações. Mais tarde o fariam em suas colônias.

Da mesma forma, os abolicionistas, negros alforriados, e o Reino Unido, a Família Imperial, pressionam o governo brasileiro a abolir a escravidão.

Em maio de 1888, o Senado se reuniu para discutir a lei da abolição que saiu aprovada.


Mas imaginem o que é ter a sua liberdade sem ter a dignidade devolvida? Sem um pedaço de terra ou o mínimo de recurso para recomeçar uma vida.


Enquanto de um lado, nós temos uma população branca erguendo muros, se protegendo de ex-escravos, que agora eram saqueadores ou pessoas muito pobres em busca de sobrevivência, do outro temos o surgimento das favelas e de um abismo social como o que conhecemos hoje.

 
 
 

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© 2021 por Caroline Muniz

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