top of page

OO abjeto compreende tudo aquilo que não pode ser reconhecido enquanto vida, ou ao menos enquanto corpos que importam (BUTLER, 1993), tudo aquilo que não cabe na lógica performativa branca-capitalista-moderna-colonial-magra-cristã. O abjeto nos atira de volta a incomensurabilidade do ser, nos traga e nos realoca a um tempo outro onde os princípios de separabilidade, determinabilidade e sequencialidade ainda não foram forjados pela lógica cis-capitalista.

      Para que a identidade moderna seja enclausurada em suas forjas últimas é necessário delegar ao abjeto sua expulsão da vida social moderna, negar sua identidade e existência, arrancar desses corpos possibilidades outras de habitar o mundo. A branquitude enquanto categoria política só se firma enquanto vida, enquanto corpo que importa, enquanto não-matável, enquanto dignamente ontológico, com a presença do abjeto.

Aquilo que o abjeto, pela sua mera existência, provoca ao não respeitar os limites e as regras (KRISTEVA, 1982, p.4). Mas a existência desse corpo torna-se fundamental, pois, ao provocar seu amor permanentemente do lado de fora, torna-se possível a constituição de uma ideia alienante, mas confortadora de uma identidade coesa, de sistemas ou regras protetoras e organizadas. Os corpos abjetos, desse modo, ocupam a ordem do inóspito e do inabitável, enquanto os corpos que importam em sua existência material ocupam os espaços legítimos dentro de um enquadramento, os espaços de que de fato importam. (PORTO, 2016, p.162)

O abjeto aqui é substrato que subsidia a moldura da existência branca.

         Todavia, o corpo abjeto é mais do que isso, pois suas formas onto-epistêmicas de habitar o mundo são inacessíveis para a égide ocidental, o corpo abjeto é o não marcado, o não posicionado, o não pertencido, constituindo-se enquanto não-sujeito, enquanto abertura de clareira desse porvir que apesar de fecundado sob a destruição, fixa o fim desta.

               

                                          Cassandra Moira Costa Moura

 

RETRATOS

© 2021 por Caroline Muniz

bottom of page