S''Ninguém nasce mulher, torna-se mulher'' há mais de setenta anos Simone de Beauvoir já havia compreendido que nada é mais importante para a validação de uma mulher perante a sociedade do que a performance de gênero. A feminilidade não está diretamente ligada ao fato de um mulher ser mulher, seja ela cis ou transgênero, a feminilidade está ligada ao quando a sociedade pode controlar nossos corpos. Meninas têm regras impostas aos seus corpos ainda na barriga da mãe.
É menina? Enxoval rosa
Nasceu? Tem colocar brinco
Estude! Mas não muito senão não arruma marido
Roupa curta? Nem pensar, isso coisa de puta
Trabalhe, mas não ganhe mais do que o marido, isso o deixa frustrado
Trans? O que é isso? Quem tem pênis é homem.
Apanhou porque mereceu!
Ser mulher é ter sua legitimidade questionada diariamente se você não corresponder a um padrão de feminilidade, padrão esse estabelecido nos 30 e 40. Essa é a idéia de mulher que ainda perpetua na sociedade, a ''dona de casa perfeita'' de vestido godê, lábios vermelhos, saltos altos que está sempre a disposição do marido. Uma mulher que não trabalha, não estuda e não tem os próprios sonhos, uma mulher moldada sob medida para servir uma sociedade patriarcal e ainda agradecer com um sorriso doce.
Caroline Muniz

MARILYN MONROE E JESUS CRISTO

A obra que atualmente se encontra no Leopold Museum, em Viena, é um dos desenhos mais expressivos de Egon Schiele, em técnica mista de giz preto e guache sobre papel. A obra é emblemática, com contornos demarcados e traz à tona uma característica do autor de na maioria das vezes pintar mulheres fetichizadas ou em conotações sexuais, como nesse caso. Onde uma mulher seminua, trajando camisa e botas longas, debruçada e com os braços cruzados à frente do rosto, as maçãs ruborizadas.

Mais uma vez Egon Schiele, traz a figura da mulher em uma posição de submissão, a expressão em seu rosto é de terror enquanto o cardeal está com o rosto enterrado em seu pescoço. Há ainda uma teoria de que a pintura seria uma releitura da obra O Beijo, de Gustav Klimt. Outra teoria é de que a freira seria um auto-retrato de Schiele, e as pernas seriam de um outro quadro de sua companheira Wally. A expressividade da obra é outra característica marcante de Schiele.

Aqui, como argumenta Elke Königseder (Dorotheum), Egon Schiele traz uma figura feminina em explicita encenação do corpo e da sexualidade, onde o artista faz do erotismo o proprio objeto de seu quadro, elevando o nu erótico a uma condiçao de obra de arte autônoma. A obra que até hoje gera debates acerca da identidade da modelo, supostamente sua cunhada Adele Harms, dialoga com obras de Van Gogh e Klimt, mas com uma interpretação própria, marcada por uma tensão sexual.

A tela do modernista, Di Cavalcanti, ousada pela escolha na representação de tema da cultura popular e no arrojo da composição estética, traz duas figuras femininas, inicialmente retratadas nuas, posteriormente foram parcialmente vestidas. A que obra foi perdida em um incendio de 2012, trazia referências da estadia do artista Europa, quando em contato com as vanguardas artísticas, como Picasso, Georges Braque, Léger e Matisse.Na profusão de cores e composição das formas, valorizou a sensualidade

A obra da “grande dama” do modernismo nacional, atesta o interesse da artista pelas influências estéticas das vanguardas artísticas com elementos concretistas, do cubismo e primitivismo. Vinda de uma família de elite e de uma geração pós-abolição, na sua representação feita a partir de suas memorias infantis, reforça muitos estereótipos relativos ao corpo negro feminino, como figura caricata, de gestos e feições embrutecidas e um seio descomunal, em referência às falsas narrativas sobre amas

A obra de Picasso teve importante papel no desenvolvimento do cubismo e da arte moderna de modo geral, trazendo elementos da chamada “arte primitiva”, a referência às máscaras tradicionais africanas e esculturas ibéricas, mas inicialmente, a tela foi mal recebida pelos críticos de sua época. Abandonando as formas de representações da arte tradicional, o artista inova utilizando a distorção do corpo feminino e das formas geométricas de forma inovadora, contrariando as representações idealizadas

Esta obra, marcada por um forte sentimento misto de melancolia e êxtase, com sua forma drástica e direta de representação, rompia com as convenções estéticas da época. Com proporções nítidas e cores arrojadas na representação do corpo, é considerada uma obra prima do expressionismo ao mesmo tempo em que revela o esforço do artista na transformação do próprio corpo humano em uma obra de arte

Nesta obra, Ventura Profana trabalha com referencias aos corpos, negros, indígenas e travestis, tomando a colagem - ou remix - como base da criaçao artistica. Sua produção artística, mais do que como pesquisa e investigação, se projeta como um trabalho de vida, calcada na observação e resposta às estruturas religiosas, reivindicando caminhos de prazer, justiça e liberdade, a “desdemonização” dos desejos e a realização de sonhos.
Um possível diálogo com práticas sociais e culturais, sem abordar teorias feministas e pós-estruturalistas, deixariam assim de falar dos processos de dominação que ocorreram e que subjugaram os corpos femininos, homossexuais, trans e não-brancos a um determinado sistema normativo. As matrizes da sexualidade passam por uma estrutura reguladora e que faz parte da construção de um violento imaginário social que se conserva enquanto projeto produtor de diferenças sexuais e de padrões binários. Questões que se inscrevem na contemporaneidade e para este texto, onde os estudos queer/cuir e as questões do feminismo sugerem uma subversão às escrituras sociais, através das práticas de representação do corpo na arte
Amora Ju
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A modernidade-capitalista-patriarcal-ocidental-branco-cis-hetéro-cristão-colonial é um projeto de aniquilação de mundos que começou em 1492, um projeto de destruição onto-epistêmica de outras civilizações, de outras formas de ser e estar no mundo, de outros corpos (humanos e não-humanos) que como não são capazes de serem assimilados a máquina de moer mundos, são transformados em coisas, em corpos abjetos.
O princípio organizador da modernidade é a destruição da outridade, é a transformação de corpos em pedras (YUSOFF, 2019), em commodities, é a transformação da vida em não-vida.
Cassandra Moira Costa Moura