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Corpos alvo

Nós, as dissidentes, as abjetas, a Coisa, vivemos sob um projeto de mundo, uma máquina de destruir mundos, onde o nosso corpo não cabe enquanto organismo capaz de ser e estar sem a mediação dos ditames modernos ocidentais, ou seja, a quantificação, a servidão, a expropriação, a escravidão, a mortificação. Mas nós, uma vez que não cabemos no mundo, uma vez que somos realocadas enquanto corpos abjetos, fazemos um duplo movimento, o primeiro é o de não pertencimento a este mundo e as configurações últimas da forma jurídica econômica do capital; o segundo é o de mostrar o porvir, engendrar o papel do futuro, isto é, ao nos opormos com o que vem sendo feito e produzido pela esteira ocidental, ao viver no entremeio entre vida e não-vida, refundamos a possibilidade de outros mundos possíveis, a presença de nossa prática, de nossa vida, de nossas memórias-entre-gentes, de nosso amor, de nossa insistência na alegria de estar presente (PEREIRA, 2020), de nossas comunidades de destino (BOSI, 1994), demarca nossa presença enquanto ruínas vivas, onde somos os lembretes de que outros mundos são possíveis.

Por favor, pare de se preocupar com essa merda para que possamos nos preocupar (cultivar, provocar, virar, mastigar, cortar e encrespar) com a prática da nossa presença.  [...] apenas a presença de nossa prática no amor e na batalha, em e através de suas ruínas, do outro lado de seus suspiros moribundos e suas últimas palavras. (HARNEY; MOTEN, 2020, tradução nossa)

Nosso papel é insistir na alegria de estar presente, de novo, de novo e de novo (PEREIRA; MOURA, 2020).

A natureza vai tomar conta. Tudo o que foi aterrado, o mar vai tomar de volta. Vamos voltar a nos enxergar na escala que as coisas realmente têm. Rio tem que tomar tudo que é de rio, mar tem que tomar tudo que é de mar, mato tem que tomar tudo que é de mato, e a gente tem que voltar a ser bicho. E como se volta a ser bicho? Virando travesti! Travesti não é humana. Travesti é sobrenatural. Para tudo isso, o macho vai ter que cair. (PROFANA, 2020, p.63)

Cassandra Moira Costa Moura

ESTILO DE VIDA

© 2021 por Caroline Muniz

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